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14 de mai. de 2009

Meu jardim, meu jardineiro. Minha estética e minhas verdades.

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Clovis Ricardo Schrappe Borges - clovis@spvs.org.br

 Para conseguir o efeito desejado, este texto parte de alguns pressupostos para com os leitores. Um punhado destes diz respeito a conceituação sobre o tema da conservação: de que todos estamos de acordo que a conservação da natureza passou a ser um tema de maior relevância nos últimos anos; de que a proteção de áreas naturais é a maneira mais prática e significativa de se conservar a natureza; de que quanto mais bem conservada for uma área natural, mais biodiversidade nativa estará nela inserida; de que além de estarmos protegendo espécies da flora e da fauna, perpetuamos paisagens, garantimos sumprimento de água, de ar, colaboramos para com o eqüilíbrio climático, para com o uso racional dos recursos naturais, para com nosso bem estar. Dúvidas a este respeito e podemos parar por aqui mesmo.

Outros pressupostos se referem à situação atual das áreas naturais, rurais ou urbanas, na maior parte da porção leste do território brasileiro: sabemos que não existem mais do que 3%, em média, de áreas naturais bem conservadas em toda estas regiões do Brasil; uma pequena porcentagem restante divide em áreas nativas degradadas, que estão sendo rapidamente reduzidas; a grande maioria do território é hoje formada por plantações agrícolas, pastagens e monoculturas de árvores, além de cidades e áreas industrializadas; a progressão da destruição dos últimos 3% e das áreas naturais degradadas continua ocorrendo de maneira significativa; ainda são poucos os instrumentos que valorizem e garantam a perpetuidade de áreas naturais bem conservadas, públicas ou privadas; não há tempo disponível para deixar as demandas da conservação da natureza para as próximas gerações - será demasiado tarde para isso;

Ainda, conceitualmente, o brasileiro ainda não percebe o verdadeiro sentido e importância da conservação da natureza, desprezando-a ou qualificando-a erroneamente; parte do que fazemos para ajudar a natureza, com a melhor das intenções, pode representar um verdadeiro desastre em termos de resultado; muito embora de menor relevância, áreas urbanas podem constituir um bom exemplo de iniciativas conservacionistas e repercutir em mudanças de comportamento demandadas pela sociedade, se quisermos melhorar nossa condição ambiental nos próximos anos. Dúvidas sobre este conjunto de afirmações podem ser aceitas parcialmente, uma vez que o que segue abaixo procurará, justamente, reforçá-las, especialmente no que se refere ao trato às áreas naturais que ainda existem, em alguma proporção, nas cidades brasileiras.

Generalidades abordadas, o foco deste texto envolve nosso esforço em manter "áreas verdes" em centros urbanos e sua periferia. Note-se que a reconhecida expressão "área verde" pode significar muitas coisas. Pode ser um gramado. Pode ser uma rua arborizada num bairro qualquer. Pode ser um punhado de árvores exóticas, plantadas ao longo de uma cerca sob o argumento de que "crescem rápido". E "área verde" também pode ser uma área nativa, em diferentes estágios de conservação: uma capoeira, uma floresta secundária, um banhado, um campo natural. Muitas coisas. Quase tudo que é verde se encaixa nesta nomenclatura simplista.

E é justamente nesta amplitude de variáveis, que acabamos nos perdendo es endo enganados. Assim, o primeiro aspecto a se considerar é não utilizar este termo "área verde", sem uma complementação que especifique objetivamente a o que estamos nos referindo. Caso contrário, o propósito do uso é o de confundir, mais que nada. Se dissermos que estamos aumentando as "áreas verdes" em algum lugar, o que será que isto deve significar? Pode ser que estejamos nos referindo a uma nova frente agrícola, a uma plantação de pinus, a um novo campo de futebol na cidade... E até a uma área nativa sendo restaurada. Mas um enorme problema vem sendo misturar isto tudo, deixando o outro lado sem ter como saber o que realmente estamos querendo dizer.

Pior. Na maioria dos casos, trata-se de iniciativa completamente fora de princípios de conservação e, pela subjetividade, anunciada como tal. Falta de precisão de um lado, proposital ou não, e falta de conceituação do outro, impossibilitando nem ao menos a geração de sentimento de dúvida. Está feita a obra de vender gato por lebre. Ou paisagismo por conservação.

Uma longa rua arborizada, em geral formada por uma só espécie exótica selecionada por critérios de conforto e proteção das pessoas, nada tem a ver com a conservação da natureza. Um jardim recém montado pela melhor empresa de paisagismo da cidade, muito provavelmente não terá nada a ver com conservação da natureza. E assim por diante. O perverso desta realidade é que, mesmo sem nenhuma conecção garantida entre plantar espécies quaisquer, formando uma "área verde" e conservar a natureza, sistematicamente estas iniciativas são associadas, perpetuando a mal conceituação que dispomos sobre estes assuntos.

É certo que, independentemente da cidade em que estejamos vivendo,  ao mesmo tempo em que áreas verdes estão aumentando,  áreas naturais ou nativas estão desaparecendo quase por completo. Não é esquisito? Esquisito e, de certa forma, criminoso. Pois muitas das supressões de espaços ainda bem conservados se dá a partir do subterfúgio de que a situação não é tão grave, uma vez que estão sendo ampliadas as "áreas verdes". Políticas públicas de expansão urbana em cima de espaços naturais são pautadas, muitas vezes, a partir deste tipo de insinuação. Uma inverdade conveniente.

Como cidadãos, deveríamos exigir mais clareza dos governantes, políticos e empreendedores privados sobre o tema da conservação. Em geral estes atores todos ainda tratam a proteção de áreas naturais como prejuízo certo. Uma dor de cabeça. E investem em instrumentos cada vez mais elaborados para ludibriar a sociedade. Um exemplo muito evidenciado positivamente nos últimos anos na cidade de Curitiba se refere a uma região que passou a ser chamada de "Ecovile", nova frente imobiliária para prédios de luxo. Poucos anos atrás, uma vasta faixa de porções de vegetação nativa cobria as áreas delimitadas para a invasão de novos empreendimentos imobiliários. Hoje, já é possível se observar o óbvio: o custo para a implantação destas obras vem sendo a sistemática destruição das áreas natuaris existentes. Cabe perguntar se, ao final, terão o bom sendo de mudar o nome da região depois de destruirem tudo? Os consumidores deste produto de propaganda enganosa estão cientes da versão falaciosa de conservação utilizada na estrapégia de venda? Sequer estão preocupados com este detalhe?

Na verdade, exemplos não faltam. Desculpas para destruir tem sido nossa especialidade. Falta a percepção de que há um regramento mais técnico e consciente a ser seguido para se conservar a natureza, que não é tão simples, nem tão fácil e nem tão rápido de alcançar. A conservação da natureza é hoje considerada uma ciência e proteger áreas naturais está longe representar apenas a decretação de uma determinada região como parque ou similar. Muito embora cada vez mais se observe a complexidade e a fragilidade da natureza, insistimos em colocar em mãos erradas a responsabilidade do que fazer a respeito, até quando as intenções são as melhores possíveis. Achar que um jardineiro convencional, ou mesmo uma empresa de paisagismo, formada de profissionais convencionais, irão ajudar-nos a conservar alguma coisa, é pedir demais e jogar dinheiro fora na enorme maioria dos casos. Em especial, nossas próprias percepções do que deve ou não ser feito percisam ser melhor pontuadas.

Há, por certo, uma demanda reprimida, em cada cidade brasileira, por serviços mais qualificados e que promovam iniciativas realmente congruentes com princípios de conservação de áreas naturais, sua flora e sua fauna características, fugindo da "estética de plástico" exemplificada pelo uso de cedrinhos, beijinhos e grama coreana (dentre contenas de outras possibilidades absolutamente estéreis ou, ainda, colaborando com a introdução de exóticas invasoras). É evidente que não há motivo para radicalismos, sendo a utilização de ornamentais exóticas não invasoras uma possibilidade aceitável, mas sem perder de vista que um esforço de interesse comum é manter e desenvolver espaços nativos onde seja possível - de um pequeno jardim a grandes condomínios, chácaras de lazer, clubes, empresas, etc... Justamente o que não ocorre.

Quem ainda não se deparou com o sujeito que anuncia ter adquirido recentemente um terreno ou uma chácara com uma notável vegetação nativa e que, sem pestanejar, começou a dar uma "ajeitada" na sua área? Primeiro, limpa - destroe -  o sub-bosque. Todas aquelas árvoretas pequenas tiram a visibilidade e não deixam, a grama crescer. Ficam as árvores maiores, também selecionadas a partir de critérios como a falta de insolação, existência de muitas parasitas (em geral efífitas) e daí para a frente. Um arremate final: pintar os trocos de branco e encher de beijinhos nas porções mais isoladas. O paraíso está formado. Deu um trabalhão, mas vale a pena para ajudar a natureza, não é? Na realidade, apenas este conjunto de procedimentos permite uma quebra radical da biodiversidade da área impactada com a ajuda de seu novo proprietário.

Na seqüência, vem o plantio de exóticas de todos os cantos, para abrilhantar ainda mais o enriquecimento da propriedade. Soltam-se animais domésticos - galinhas, porcos, cavalos, cães e gatos - para garantir a presença explícita de fauna na propriedade, quase sempre com 100%  da vegetação alterada, sem nenhum espaço sequer que lembre sua forma original (e como deveria, em grande parte, ter permanecido). Nas regiões mais urbanizadas, galhos e folhas são o mesmo do que lixo. Varrê-las sistematicamente, até o solo aparecer, faz parte do processo de "limpeza". Grandes sacos plásticos recebem todos o "lixo" retirado do jardim e são, quase que diariamente, depositados para à frente da rua para que uma equipe de funcionários públicos, com um grade caminhão, transporte para local indeterminado, todas as matérias que causam impacto negativo aos olhos do proprietário, aliviado em, mais uma vez, se ver livre do peso der tanta sujeira. Sequer percebe estar exaurindo seu terreno de substrato, sendo absolutamente simples o depósito todo o material proveneiente de jardins, nos próprios jardins. Nada mais lógico e simples. E não realizado por quase ninguém.

É bom insistir que este cenário é a regra e não a excessão. Todos os dias, em todos os lugares. Imaginem a quantidade gigantesca de energia e boa vontade sendo gastos de maneira completamente inadequada. O cenário da conservação da natureza já é dramático, a partir da fração preponderante da sociedade que quer mais é destruir. Se aqueles que pretendem proteger alguma coisa e têm a valorosa sensibilidade para isto, não estiverem minimamente orientados, então, estamos mesmo fritos.

A conclusão é que somos, lamentavelmente, péssimos manejadores de nosso espaços. De nossas "áreas verdes". Não cobramos um tratamento adequado às áreas públicas, não cobramos limites ao uso de áreas privadas que ainda estão com cobertura natural (sejam florestas, campos, banhados), e não sabemos quase nada de como cuidar de um simples jardim. Nem se falar de algo mais amplo. Pobres chacrinhas delazer. Pobres últimas áreas naturais que estão caindo nas mãos de degradadores de carteirinha ou de conservacionistas de faz de conta. Sobrou quem?

Em 2000, a parir de uma seqüência de demandas da comunidade da Região Metropolitana de Curitiba, surge uma iniciativa que tem a pretensão de colaborar com as pessoas que querem, de fato, fazer conservação. É o Condomínio da Biodiversidade, ou CONBIO, uma iniciativa entre empresas, instituições não governamentais, governo e, especialmente, pessoas físicas, interessadas em refinar seus conceitos e procedimentos de conservação da natureza em suas próprias áreas. Quem tiver curiosidade, ou demandar de alguma orientação procure o site www.condominiobiodiversidade.org.br . Lá já existem informações muito interessantes sobre a região de Curitiba, incluindo alguns casos práticos que valem a pena serem observados.

Não importa o tamanho nem a condição atual de algum trecho de chão que você considere destinável a proteger a natureza. Sempre haverá um jeito de se fazer algo positivo. E, em geral, de forma muito mais barata do que as peripécias e superficialidades que vemos todos os dias ocorrendo nas "áreas verdes" urbanas do nosso País. Sorte de quem se deparar com jardineiros da categoria de Ademar Brasileiro, membro fundador e entusista do CONBIO. Ele vai começar a conversa mansamente, perguntando se você já ouviu falar em cerca viva de pitangueiras! E aí, não vai mais parar de dar idéias totalmente distintas do que o sistema convencional oferece. Pena poucos ainda serem assim como ele. E também serem poucos os que o procuram.

Fazer conservação é importante, dá imenso prazer e é uma atividade muito séria. Demanda orientação técnica, bom senso e boa vontade. Mudanças de paradigmas são imprescindíveis, mas os resultados a serem alcançados justificam um esforço nesta direção. Há jardineiros e jardineiros. Mas sobretudo, há proprietários e proprietários. Informe-se melhor e mude seu comportamento perante a natureza de sua casa e de todos os outros espaços em que sua ação possa influenciar. Sem isto, continuaremos a gastar mais dinheiro, empobrecer a natureza de nossos espaços e, o pior de tudo, enganar nossos filhos com iniciativas equivocadas. Já fizeram isto conosco em gerações passadas, e está na hora de mudar o curso desta história nesta geração.   


Clovis Ricardo Schrappe Borges
Diretor Executivo
Sociedade de Pesquisa em Vida Selvagem e Educação Ambiental - SPVS
Rua Isaías Bevilaqua, 999 - Mercês
80.430-040 - Curitiba - Paraná
clovis@spvs.org.br
www.spvs.org.br


Fonte: Eco Terra Brasil



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