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1 de jun de 2009

Gary Snyder - poesia e ecologia

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Hoje o Estadão publicou a entrevista com o poeta, tradutor e ecologista Gary Snyder, feita por Rodrigo Garcia Lopes (quem perdeu o Estadão pode ler a íntegra no seu blog: Estúdio Realidade).

No site Caleidoscópio.art há uma entrevista mais antiga também disponível.

Porta-voz de importantes mudanças sociais, Gary Snyder (Califórnia, 1930) é um dos mais consistentes e instigantes poetas norte-americanos contemporâneos. Seu pensamento, expresso não só em seus poemas e ensaios, mas também em suas ações políticas e em seu exemplo pessoal, conduz à consciência ecológica, à busca 
da simplicidade original, à redescoberta do sentido de lugar, e sugere uma mudança das estruturas sociais já dilapidadas.

Voz apaixonada e sonora de poeta-ambientalista no caótico cenário do mundo pós-moderno, Snyder sustenta suas convicções em tradições ancestrais, no estudo formal da filosofia, no trabalho físico e na reverência pelo mundo natural. Por meio da prática bio-regionalista, xamânica e zen budista, ele nos apresenta um modo diferente de se perceber a natureza, a nossa própria mente e a nossa posição na sociedade. Celebrando a dignidade do trabalho e a linha de transmissão do conhecimento, seus escritos nos convidam à reflexão sobre nossa posição em relação à vida do planeta e à descoberta dos ciclos da vida do lugar onde nos encontramos - uma reflexão universal profunda, atenta e humilde.

A percepção da conexão e interdependência entre todas as coisas - seres, pedras, lixo, estrelas - é um dos fundamentos da obra de Gary Snyder. Obra complexa, pela profundidade dos temas que explora e pela diversidade de alusões que suscita, mas ao mesmo tempo transparente e acessível, pelo modo direto e efetivo com que consegue articular os princípios de sua composição literária.

O pensamento de Snyder revela que os valores para o século XXI são outros, inclusive muito diferentes daqueles cultivados pela geração Beat, que se valeu de uma liberdade e mobilidade que a economia do pós-guerra tornou possíveis. Hoje o cenário sofreu mudanças, e nele o sentido de comunidade e de lugar aparecem com uma nova dimensão - uma posição radical contra o consumismo absurdo e a destruição ambiental que caracterizam o mundo atual. Assim, qualquer modelo para uma cultura verdadeiramente saudável deve começar com uma identidade pessoal e o compromisso com o lugar - que não é, enfatizemos, apenas o modelo rural de lugar, mas de qualquer lugar que tenha significado para um indivíduo. Para o poeta a consciência da vida regional é tão poderosa/importante numa cidade quanto no campo. Sentido significa responsabilidade e interação. Aceitação de uma doação responsável ao lugar, com espírito de cooperação para participar na prática de desenvolvimento da família comum - para um re-habitar.

No Brasil, a editora Azougue lançou a primeira antologia em português de Snyder. "Re-habitar" inclui 50 poemas e 8 ensaios, e tem tradução de Luci Collin (que também pode ser encontrado na livraria Cultura).


Dois poemas:


Canção do amanhã

Os states lentamente  perderam seu mandato

da metade até o fim do século

nunca deram às montanhas e rios,

árvores e animais,   

um voto.  

todas as pessoas os repudiaram

mitos morrem;

até  continentes são impermanentes

Turtle Island* retornou 

meu amigo abriu fezes secas de coiote

retirou um dente de roedor

perfurou e pendurou

numa argola de ouro

na sua orelha.

Olhamos pro futuro com prazer

não precisamos de combustível fóssil

obtemos poder de nosso interior

crescemos fortes com menos.

Agarramos as ferramentas

e nos movemos no ritmo lado a lado 

lampejos de lucidez e de conhecimento

olho no olho                                                

sentados quietos como gatos ou pedras

tão completos e seguros

como o céu noturno azulado.

dóceis e inocentes como lobos 

tão enganosos como um príncipe.   

No trabalho e em nosso lugar:   

a serviço

do mundo selvagem

da vida

da morte

dos seios da Mãe!



* Turtle Island = ilha da tartaruga, nome usado pelos nativos americanos para denominar sua terra (atual EUA).



YASE: SETEMBRO

A velha Sra. Kawabata
roça as altas e espigosas ervas daninhas —
mais em duas horas
do que eu consigo roçar num dia.

duma montanha
de capim e cardo
ela separou cinco hastes poeirentas
de flores do campo azuis e irregulares
e as colocou na minha cozinha
num jarro.



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