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7 de jan de 2009

Um dia com o mínimo possível de água: você conseguiria?


Por Murilo Alves Pereira
Especial para o UOL Ciência e Saúde

O balde cheio d'água dançava em minhas mãos. Levantei com dificuldade e despejei uma boa parte sobre a cabeça. Dever cumprido, um banho digno. E ainda restava um fiozinho de água para terminar o dia. O sacrifício de tomar banho a baldes de água fria foi movido por um desafio: passar um dia completo com apenas 20 litros de água.

A quantidade, definida por normas internacionais da Organização Mundial de Saúde e do Fundo das Nações Unidas para a Infância (Unicef), é o mínimo de que o ser humano precisa para preservar seu bem-estar físico e dignidade referente à higiene pessoal. Na prática, porém, a história é outra.

Enquanto eu controlava um dos últimos baldes da minha cota diária, um norte-americano acionava mais uma vez o botão da descarga, em seu apartamento em Manhattan. Ao final do dia, ele terá gasto 50 litros só com a descarga - dois dias e meio do meu desafio indo ralo abaixo!

O gasto do cidadão norte-americano médio é de incríveis 575 litros de água por dia, segundo informa o Relatório de Desenvolvimento Humano, do Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento (Pnud), de 2006, que trata da escassez de água. A média européia fica entre 200 e 300 litros e, aqui no Brasil, gastamos, em média, 180 litros.

A situação na África Subsariana, claro, é bem diferente. Em Moçambique, a população tem acesso a menos de 10 litros diariamente. No Quênia, as pessoas precisam andar quilômetros para conseguir de 12 a 14 litros ao dia. Em época de seca, quando os rios encolhem, esse número cai bastante.

A falta de água é problema sério em um planeta sedento e desigual. Ao fim do dia do meu desafio, 4.900 crianças menores de 5 anos morreram de diarreia no Quênia. A doença, segunda maior assassina de crianças em todo mundo, tira a vida de 112 bebês quenianos a cada mil que nascem.

A relação acesso à água e doenças é bastante clara. "Com o aumento da oferta de água no Nordeste brasileiro, a mortalidade infantil caiu drasticamente na região", confirmou o coordenador de Ciências Naturais da Organização das Nações Unidas para Educação, Ciência e Cultura (Unesco/Brasil), Celso Schenkel. Segundo ele, 1,1 bilhão de pessoas em todo o mundo ainda não contam com o fornecimento de água potável e estão sujeitas a enfrentar doenças mortais ou viver sem a dignidade de um banho.

Pensei nisso ao enfrentar 24 horas com meros 20 litros de água. Separei minha cota em um engradado, para ter o controle exato. Reservei em uma garrafa pet dois litros exclusivos para minha hidratação e fui à luta.


Com 20 litros de água, dá para ficar com o corpo e a consciência limpos


Era domingo, fui visitar meus pais, que faziam faxina em casa. Minha mãe, lavando roupa, meu pai, a calçada. Falta de sincronia entre os dois, pois a água descartada pela máquina poderia muito bem ser usada na limpeza da calçada.

Da calçada, meu pai passou para um banho demorado no cachorro, o Bruce. Por um momento senti inveja daquele labrador barulhento. Quinze minutos de água correndo pela mangueira e lá se foram 280 litros. Se o Bruce, ou uma calçada qualquer, dependesse desse banho toda semana, em um ano gastaríamos cerca de 14,5 mil litros de água.

Fui lavar o rosto e escovar os dentes, para não presenciar aquele desperdício (preciso ter uma conversa séria com meus pais). Deixei dois baldes no banheiro: um com água limpa e outro que seria enchido com água suja. Menos de um balde de cinco litros foi suficiente para toda aquela rotina da manhã.

Mas economizar na escovação dos dentes não requer esforços muito grandes. Segundo a gerente de operações do Instituto Akatu Heloísa Mello, se um milhão de pessoas fechassem a torneira enquanto escovam os dentes, economizariam em um mês 12 minutos de vazão das Cataratas do Iguaçu. Já estive lá e posso garantir: é água pra dedéu.

"São pequenas atitudes ao longo da vida, que fazem uma diferença tremenda", reforça Heloísa. Ela também compara o tempo de banho, meu Calcanhar de Aquiles no fatídico dia de teste. Um banho de ducha de 10 minutos gasta, em média, 160 litros de água. Se fechar a torneira ao se ensaboar, uma pessoa economiza, por ano, 30 mil litros d'água. E se 60 famílias em um condomínio tivessem a mesma atitude? Seriam sete milhões de litros, quase três piscinas olímpicas de economia.

"Água virtual"

Cheguei vitorioso ao almoço, sem ter usado nem metade da minha reserva valiosa. No banheiro, deixei separada a água suja da escovação matinal e misturei com meio balde de água limpa para utilizar na descarga. Eu usar somente água pura para descarga em um dia de contenção? Nem pensar.

Mas minha animação acabou durante a refeição: arroz, feijão, batata, salada, carne e uma cervejinha, pois ninguém é de ferro. Ao cortar o bife, tentei imaginar a quantidade de água que teria sido usada para produzir aquele pedaço de boi.

A dúvida não é só minha. Em 1993, o professor John Anthony Allan, do King's College London, cunhou o termo "água virtual" - o que lhe valeu, aliás, o Stockholm Water Prize, de 2008. A questão de Tony Allan foi buscar o quanto é gasto de água em toda a cadeia produtiva de cada produto, do início de sua produção até o consumo.

Para cada quilo de carne de boi, estimou ele, são gastos 15 mil litros de água, considerando transporte, comércio e outras etapas da cadeia produtiva. Em meu prato, portanto, havia uma enxurrada de água virtual.

Mas então olhei em volta. Minha mãe, picando miudinho a batata assada, mal sabia que cada uma custou de 100 a 200 litros de água. O quilo de arroz, aos montinhos no prato de minha irmã, despendeu outros 1.000 litros. A indústria cervejeira, mais eficiente hoje do que no passado, ainda gasta de 5 a 8 litros de água para produzir um litro da bebida que meu pai estava apreciando.

DOS 20 LITROS, ELE GASTOU...

2 litros

para beber

7,5 litros

para o banho

1/2 litro

para lavar louça

2,5 litros

para lavar o rosto e escovar os dentes

7,5 litros

para a descarga


Senti-me inundado pela água virtual: um quilo do jeans que eu usava precisou de mais de 10 mil litros de água para ser feito. A camiseta de algodão, outros 2.500 litros, segundo o Instituto de Educação para Água, da Unesco. A entidade tem até um programa para pesquisas do comércio de água virtual, que analisa quanta água embutida nos produtos é importada e exportada pelos países, não só na agricultura, mas também na indústria.

O tema é importante e pode definir as políticas dos governos para readequação do valor dos produtos exportados. O Brasil, por exemplo, um país com perfil agroexportador, pode parar de vender um bem tão precioso a preço de banana.

"A escassez de água pode levar a uma escassez de alimentos", tornou a colaborar Heloísa, do Akatu. Ela cita o paradoxo chinês para ilustrar sua afirmação: o país que concentra 21% da população mundial detém apenas 7% da água doce. Nas províncias do norte, principais produtoras de grãos do país, as 450 milhões de pessoas sofrem quando o Rio Amarelo seca antes de chegar ao mar.

Não pensei nos chineses quando terminei o dia, me esgueirando sob o fio de água que caía do balde. Pouca água aliás, um balde e meio, ou quase oito litros, usado em três parcelas de meio balde. Consegui usar sabonete, xampu e condicionador e ainda fazer duplo enxágue. Um banho digno, acredite.

Parei para pensar que essa parcimônia deve ser aplicada ao consumo como um todo. Talvez assim possamos reduzir a grande "pegada de água", como dizem os ambientalistas, gerada por nosso padrão de vida na Terra. E talvez assim, eu possa tomar meu banho com a consciência limpa. E ficar limpo.





* Veja na coluna lateral em Sites de Interesse, o ítem: Como Funciona uma Casa Sustentável.